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A chegada do irmãozinho

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Um irmão pode ser um companheiro para a vida toda, mas a criança não entende isso quando descobre que ele vai chegar.
O ciúme faz parte da vida de qualquer pessoa e mesmo as crianças bem pequenas já o sentem intuitivamente, e conseguem perceber que seu espaço pode vir a ser ocupado por outras pessoas. Quando a criança descobre que vai ter um irmãozinho, por exemplo, o choque pode ser muito grande, afinal, os pais são as pessoas mais próximas dela. Mas este sentimento possessivo pode aparecer em muitas situações.

Ele se manifesta muito cedo e, às vezes, de forma inconsciente, acredita a psicóloga Anette Lewin*. "Tive uma paciente de 4 anos super dócil, que se tornou agressiva comigo de uma hora para outra. Algumas semanas depois eu descobri que estava grávida. Como tínhamos uma ligação forte, de alguma forma ela intuiu a chegada de alguém que mudaria nosso relacionamento. Na minha segunda gestação vivi novamente esta experiência com a minha filha de 1 ano e meio na época, que antes que eu soubesse da gravidez se tornou mais ciumenta e agarrada comigo".

Com a chegada iminente de um irmão, além de ficarem mais agressivos com os pais, os pequenos apelam para outras táticas para chamar a atenção, como voltar a fazer xixi na cama ou retroceder nas brincadeiras. Ao invés de se comportarem de acordo com suas idades, voltam a agir como bebezinhos.

Segundo Anette, não adianta dizer ao baixinho que ele não perderá seu espaço, que o irmão será seu amiguinho. "Ao invés de falar que ele não perderá seu espaço, o que não é totalmente verdade, pois terá de aprender a dividir, acho melhor deixar que o pequeno expresse seu ciúme, mas sempre ressaltando que não pode agredir o irmão ou outra pessoa fisicamente".

O mais recomendável é valorizar cada vez mais o primogênito, ressaltando sempre como ele cresceu, o que aprendeu de novo, destacar todas as suas conquistas e evitar falar do irmão quando ele não levanta o assunto. Mas quando ele quiser se expressar, permitir.

"Não se deve reprimir as manifestações verbais dos sentimentos infantis. Deixe a criança desabafar, pois assim ela conseguirá elaborar melhor o que sente e os pais poderão avaliar o que se passa em sua cabecinha. Os pais devem dizer que compreendem o que ela sente, que é normal, mas que mudará com o tempo. É melhor do que falar que a chegada do irmão não vai representar nenhuma mudança para ele, o que não é verdade". Por outro lado, os pais não devem nunca associar o nascimento do irmão com perda. Por exemplo, não se deve tirar o quarto do primogênito quando o outro nasce. Ou se coloca os dois juntos ou se faz a mudança bem antes do parto.

Se a criança maior reclamar que só o bebê ganha presentes, os pais devem explicar que ele já tem tudo de que precisa para ficar quentinho e confortável e que o outro ainda não, por isso estão comprando as coisinhas dele. "Eventualmente se pode trazer algo para ele, mas não deve ser uma regra. É importante para as crianças aprenderem que não precisam ter tudo o que os outros têm".

A chegada de um irmão pode ser mais tranquila se os pais valorizam o primogênito independente do resto do mundo. "É importante que os pais programem saídas somente com ele de vez em quando, que dêem atenção a ele, mostrem que estão sempre prontos para ajudá-lo, dêem segurança. Crianças que não têm atenção dos pais sofrem mais com a chegada de irmãos".

Quando o caçula já estiver em casa, os pais não devem fazer comparações nem estimular a competição entre eles, até porque ela ocorrerá naturalmente. "Os pais não devem associar as broncas ao irmão, como por exemplo, dizendo: olha como ele é bonzinho e você não. É preciso reforçar o que cada um tem de bom sem fazer comparações, e fazê-los entender que cada um tem seu espaço no mundo".

Vale lembrar que o ciúme é um sentimento natural do ser humano, mas não deve ser estimulado. Segundo a psicóloga, em uma sociedade competitiva como a nossa é quase impossível que uma criança não se sinta insegura ao sentir que vai perder um pouco do espaço que tem pela chegada de um irmãozinho.

"Acho mais preocupante quando a criança não manifesta nada. Sentir ciúme pela chegada do irmão significa que ela está conectada com a realidade. Ela pode fazer birra, chorar ou ficar quietinha. Estas reações são normais e passam".

*Anette Lewin é psicóloga clínica desde 1974, quando se formou pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Assunto:Família

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