Criando os filhos para (qual estilo de) vida?

Por: Ingrid Strelow 25/10/2011

“Os filhos são para o mundo”. Quantas vezes você já ouviu essa expressão? Muitas, não é mesmo? E a cada dia, tenta aceitar isso e criar seu filho da melhor maneira possível. Porém, muitas vezes, a realidade que encontra fora de casa traz um grande dilema sobre a educação que está sendo dada aos pequenos. Quem está passando por essa fase é Ingrid Strelow, autora do blog Desconstruindo a Mãe, que divide com a gente seus questionamentos.

Foto enviada por Ingrid Strelow

 

Meus filhos são crianças bastante doces e amorosas. Felizmente, isso vem da personalidade deles e considero que temos um papel importante no estímulo a esse comportamento caloroso dos dois, por sermos uma família afetuosa. Faz parte de nós, pais, avós, tios, primos e padrinhos.

De uns tempos pra cá, porém, o Caio, que tem dois anos e nove meses, tem se mostrado bastante irritadiço e muito agressivo. Começou a fazer várias coisas de que não tinha o hábito, como bater na irmã mais velha (que tem sete anos), jogar os brinquedos longe e atirar-se ao chão quando contrariado.

Num primeiro momento, seria de se pensar que ele está cansado ao chegar da escola, então a frustração num momento de sono seria cabível... Será? Essa pergunta veio da observação de que, o que era esporádico, se tornou frequente, mesmo com nossa intervenção e em horários diversos, e não apenas quando está cansado.

Não somos pais que costumam justificar o comportamento indesejado de um filho e passar a mão na sua cabeça; pelo contrário, conversamos e o colocamos para pensar quando o diálogo não acontece, para que dê tempo e espaço para “baixar a poeira”.

Nessa idade, sei que o Caio vive o egocentrismo e a disputa por espaço com a irmã e com quem mais estiver no ambiente, então, interrupções às nossas conversas e não querer dividir os brinquedos é muito natural. Só que deixar passar é o mesmo que dizer: continue fazendo isso!

Com o tempo, consegui que o Caio verbalizasse o que o incomodava: “o amiguinho da escola me bateu”, me contou e deu os nomes de amiguinhos que tinham essas atitudes.

É natural que, entre os dois e três anos, a criança não tenha os argumentos necessários para negociar uma troca ou pedir emprestado, garantindo que devolverá o objeto de seu interesse ao colega. Nessa situação, então, espera-se que as professoras atuem e expliquem.

Não posso negar que trabalhos sobre combinações de regras de convivência estejam sendo realizadas na escolinha que o Caio frequenta desde fevereiro. O problema é que isso vem acontecendo há meses e, agora, um único colega o escolheu como alvo preferencial.

Minha primeira atitude foi levar a preocupação com o comportamento do filho à professora e foi sugerida parceria com a psicóloga para que víssemos onde poderia estar a causa dessa ansiedade e agressividade do meu filho. Nada mudou. Então, enviei bilhetes pela agenda perguntando se algo de diferente estava acontecendo, mas a resposta sempre foi “está tudo ok!”.

Agora que o Caio verbalizou, começaram a vir os relatos de tapas no rosto e até uma mordida bem feia na mão. Então, vem a pergunta: como proceder?

Desejamos criar os filhos para o mundo, com certeza. Mas vejo que a minha preocupação em ensinar ao meu filho brincadeiras saudáveis não é a mesma que percebo em outras famílias. Vejo coleguinhas do meu gurizinho levando armas, espadas e facas aos dois e três anos de idade, no dia do brinquedo. Brincar de lutar e a expressão “vou te matar” me surpreenderam ao sair da boca do meu filho, pois ele nunca foi incentivado a fazer isso aqui em casa, nem em outros ambientes que frequenta.

Assim, procurei saber da escola como ela está lidando com isso, pois de uns dias pra cá ouço meu filho dizer que sente saudades da escola, mas na hora de sair, ele começa a chorar, dizendo que não quer mais ir pra lá. Hoje mesmo disse que não queria levar brinquedos pra escola porque o amigo poderia bater nele pra ter o que quer. Ele está com medo mesmo! Será que estou aumentando o tamanho do problema?

Ao desejar deixar um bom ser humano para o mundo, para que este planeta seja um lugar melhor de se viver, não penso em tentar resolver tudo pelo meu filho e nem desejo ensiná-lo a bater como forma de defesa. Sempre procuro explicar que é importante emprestar os brinquedos, que os amiguinhos também sentem curiosidade e podem emprestar pra ele o que forem levar para a aula.

Mas desejo também que os pais do menino que resolve tudo na bordoada sejam apoiados – talvez estejam preocupados como eu estou – na busca por um equilíbrio, pois já vi que o menino “pira” quando contrariado e tudo para por causa de seus chiliques.

O mundo não vai parar para atender as vontades de nossas crianças e nem irá tolerar uma pessoa adulta birrenta. Ela se tornará alguém de difícil convívio e é isso que estamos tentando passar para nossos filhos, entre tantos outros valores. O diálogo e a cooperação valem a pena! E quem não aprende isso, estará sempre competindo, disputando, por exemplo, no trânsito, para ver quem é melhor motorista (e colocando vidas em risco), ou brigando pela menina que deseja namorar, ou por coisas pequenas, porque não saberá lidar com a frustração e desconhecerá os limites que nos permitem conviver em sociedade.

Por isso, hoje terei uma conversa com a psicóloga da escola, torcendo para que a nossa parceria resulte em apoio para as crianças, sem culpar ninguém. Desejo, de fato, que o Caio continue na escola, por diversos aspectos em que ela tem sido ótima. Porque também acho que tirá-lo de lá, bruscamente, seria como dar um castigo por algo que ele não fez.

O que vocês acham? Como agiriam?

Comentários enviados (9)

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Comentários

Rogéria Thompson
25/10/2011 11:47:32 #

Poxa,Ingrid isto é muito chato e complicado... tentamos dar a melhor educação e ensinar valores para nossos filhos e quando eles se deparam com atitudes assim ficam perdidos, que dó!
Eu penso que a melhor atitude é conversar mesmo com a escola,mas o problema pelo q li é que ñ está dando resultado ainda né?Uma pena as escolas ñ estarem preparadas para certos comportamentos ou acharem tudo normal...
Um bj pra vc e espero que isso se resolva logo...

Angi
25/10/2011 11:48:05 #

Ingrid,
ótimo post!
Meu filho ainda não vai na creche, nem escolinha, mas acredito que com tantas crianças, de tantas referências diferentes é isso que acontece.
Tens que conversar com as responsáveis da escola, e se fosse comigo, acredito que procuraria os pais da criança que está tendo alguns problemas, de repente vale a pena.
E claro, se nada adiantasse, eu procuraria outra escola...mas como na pratica não tenho experiência alguma, não sou a melhor opinião, e espero que as mães de filhos na escola venham opinar!
Beijos
Angi

Tuka Siqueira
25/10/2011 12:04:52 #

Entendo a preocupação da Ingrid. Também penso sobre como resolver essa questão da agressividade em minhas filhas pequenas. As gêmeas são iguais na forma, mas diferentes no conteúdo. Enquanto uma é doce, generosa e gentil, a outra é briguenta, ciumenta e toma o que quer na base da porrada. E não é questão do ambiente, pois são criadas da mesma forma, foram amamentadas o mesmo tempo e ao mesmo tempo, ganham colo e carinho na mesma medida, mas uma sempre foi mais agressiva. Lendo o texto da Ingrid, começo a pensar que parcela de culpa eu possa ter nessa agressividade dela, no que eu tenho agido errado, ou deixado de agir que contribua com esse comportamento.
Bom assunto para análise.

Abraços

Cris Guimarães
25/10/2011 12:07:43 #

Eu acho que a escola está deixando "rolar frouxo". Nas três escolas (uma no Rio e duas em SP) por onde os meninos passaram na Ed. Infantil, não era permitido levar brinquedos violentos, como facas e outras armas, tampouco brincadeiras de "matar" ou algo do gênero. Só eram permitidas brincadeiras e atitudes saudáveis e qualquer criança que agisse de forma mais violenta era acompanhada juntamente com os pais pela psicóloga de perto.

Realmente, nesse caso, não é a hora de culpar ninguém, até porque estamos falando de crianças de 2, 3 anos. Mas cobrar uma reunião com os pais do menino e uma postura mais ativa da escola seria bom, porque se é permitido esse tipo de comportamento na ed. infantil, se houver séries mais avançadas, isso pode descambar para um bullying e nada ser feito.

Roberta
25/10/2011 12:14:42 #

Ingrid,
HL na idade do Caio era extremamente birrento e muitas vezes agressivo,  entretanto os 'ataques dele sempre ocorriam por ciúmes e nunca por emprestimos ou trocas de brinquedos, por mais que nós Família conversassemos, orientassemos e não permitissemos nada ligado a violência dentro de casa, ele era agressivo e muitas vezes batia e mordia os colegas...
E PAsme também tive problemas com a escola, pois a professora se negava a me contar o que ocorria e eu acabava só tomando conhecimento do fato dias depois e sempre por acaso...
Conversava com a escola e a mesma sempre colocava como NORMAL a agressividade do meu filho, e quando eu argumentava que não achava normal e não desejava que meu filho se expressase desta forma era rotulada como exigente demias!

Quem sabe o colega em questão não esteja vivenciando o mesmo que o HL? não sabe lidar com sentimentos, descontrolase e a família não pode intervir porque simplesmente DESCONHECE o problema?
Talvez seja a hora da escola se pronunciar sobre isto. ela informa a família do menino? Trabalha junto à família?

Outro ponto e o aprender a se defender, lógico que estimular a violência NUNCA é bom, entretanto acredito que tbm cabe a nós família ensinarmos nossos pequenos a se defender, mesmo que seja se afastando de quem possa os machucar. infelizmente o mundo está cheio de pessoas onde as intensões não são lá tão boas e os pequenos precisam ser trabalhados para também saber lidar com este tipo de pessoas.

Paulo Lima
25/10/2011 13:04:17 #

Já postei em outros blogs e discuto em casa a seguinte questão: cada geração acaba criando seus filhos de acordo com SEU conceito de infância OU do que é melhor/pior para eles. Na minha opinião, é meio complicado. Se você consultar "especialistas", eles te dirão que TV demais faz mal, que criança tem que estar é na rua e que mesmo o iPad não é tão bom assim. Mas qual seria o referencial para isto? Nossa infância, onde era seguro ficar brincando na rua até 21h? Ou quando à disposição havia apenas 4 canais de televisão? E ao privarmos nossos pequenos do computador e do iPad, não estaremos privando-os de ferramentas para as quais eles já nascem prontos, hoje, e que serão a base do mundo adulto que eles experimentarão? Claro, temos que ter ponderação em tudo. E, com certeza, este é um tema apaixonante e que dá muito pano para manga...

Cristiane Pacheco
29/10/2011 21:19:30 #

Sou uma mãe exigente, cobro de meus filhos atitudes positivas, lealdade, cumplicidade, e acima de tudo respeito. Isso é o que a minha família planta, mas sabemos que fora da “Riveira,204” a vida é outra. Já passei por momentos muito parecidos com o que vc descreveu e infelizmente tive de deixar meu filho aprender a se defender sozinho. (mas não é o seu caso, pois o meu tem 12 anos). Temos de encontrar o equilíbrio entre ser bom, não brigar, não bater nos colegas e não virar o saco de pancadas dos outros. Sobre espadas o psicólogo de meu filho diz que é necessário, principalmente lutinhas com os pais e filhos ( brincadeiras de meninos).

izabele xavier
15/11/2011 14:11:39 #

Olá Ingrid,me identifiquei com o seu caso,pois o mesmo vem acontecendo com o meu Miguel que tem dois anos e cinco meses...só que como ele ainda não fala direito eu não consigo decifrar o que causa esse comportamento agressivo. Sendo que o meu bebê é super amoroso e tem valores que não correspondem a essas atitudes...vou amanhã mesmo até a escolinha dele conversar com a professora pra entender melhor essas atitudes......
bjs pra vc e que o seu e o meu problema sejam resolvidos!!!!

Glaucia
27/11/2011 12:49:32 #

Acredito que a educação de nossas crianças venham de nossas casas, lógico pois a escola lapida algumas atitudes, mas não cabe a escola a educação.Nossos filhos teem fases diversas(o por que ?, o não dividir, o subir em tudo...), mas agreção quando chega em certo ponto acredito que tenha de haver conversa com os pais da outra criança em questão, as vezes em uma conversa simples pegamos alguns tiks dos outros, problemas e até mesmo não sabem como lidar com o pequenino deles.Acho que vale uma contato tet a tet com os pais caso a escola não se manifeste como voce espera !!Grande abraço, esperando que vc consiga amenizar a violência e até mesmo extinguila!!
Glaucia de Santos.

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