Depois de conhecer um pouco o universo dos filhos gêmeos no post “A experiência de compartilhar o útero!”, convidamos Tuka Siqueira do blog Ktralhas para nos contar sobre como é ser mãe de gêmeos, as angústias e as alegrias que rondam a maternidade em dose dupla. Aproveite mais esta leitura.

Foto enviada por Tuka Siqueira
Eu já tinha dois filhos crescidos – Allyson, 23, e Yasmin, 16 – quando engravidei. Havia alguns anos que já não usava métodos anticoncepcionais, mas ainda assim levei um susto com a gravidez.
Os amigos, quando contávamos sobre o bebê que estava a caminho, nos chamavam de loucos: “Como assim? Vão voltar para as fraldas depois dos filhos já criados?”.
Um pouco antes de completar o 5º mês de gestação, fui fazer um novo ultrassom, pago por amigos mais curiosos que nós para saber o sexo do bebê. A doutora melecou minha barriga com gel, passou o aparelhinho e soltou: “Vocês já sabiam que eram dois bebês, né?”.
A reação foi de choque, incredulidade. Eu não sabia se ria ou chorava e, na dúvida, fiz os dois. Meu marido, na hora, ficou branco e mudo.
Quando saímos de lá, um turbilhão de emoções tomou conta de nós. Sentimentos confusos, ambivalentes, dúbios. Sentíamo-nos duplamente abençoados, mas a preocupação também dobrava. Será que iríamos dar conta? A grana, que já não estava sobrando, iria dar? Onde iríamos acomodar dois bebês? E o enxoval, que eu mal tinha começado a fazer? E minha saúde, iria aguentar?
Os amigos, que antes nos chamavam de loucos, agora achavam tudo muito lindo, e foi com a ajuda deles que fizemos o enxoval, com doações vindas de todas as partes, e o chá de bebê com aproximadamente 150 pessoas, no qual ganhei fraldas e outros mimos em boa quantidade.
O final da gestação foi tranquilo, mas muito cansativo. Por causa dos meus problemas de saúde, fiz dois pré-natais, um na minha cidade e outro na capital, no hospital onde me trato regularmente. E em uma dessas consultas, acabei ficando internada. Estava com 32 semanas de gestação, pressão e glicose alteradas e início de trabalho de parto prematuro, que foram controlados em quatro dias de internação. Quando tudo estava bem e eu esperava ter alta, a bolsa se rompeu, e uma cesariana de emergência teve de ser feita.
Aline nasceu às 10h11 do dia 17/3/2008 com 1.340 kg e, apenas um minuto depois, nasceu Camila com 1.695 kg. As duas ficaram na UTI neonatal por longos 36 dias, mas exceto um princípio de icterícia tratado nos primeiros dias e uma necessidade de ventilação mecânica para Camila nas primeiras 36 horas, não houve intercorrências, e elas só precisavam ganhar peso.
Por causa da medicação que uso para controlar minha E. M.*, não me foi permitido amamentá-las antes de atingirem 2 kg. E como os médicos discutiram por dois dias se me autorizariam ou não a amamentação, isso foi o fator determinante para que eu não conseguisse amamentá-las por muito tempo: apenas quatro meses.
Além da falta de estímulo nas primeiras horas, também me faltou apoio logístico. Eu ficava muito tempo a sós com as duas e não aguentava ouvir uma chorando enquanto amamentava a outra. Então, acabava recorrendo à mamadeira para não chorar junto. Mas o tempo em que as amamentei foi maravilhoso!
As emoções foram muitas nesses quase quatro anos. Aumentaram ainda mais quando me descobri grávida novamente – Aline e Camila estavam com menos de um ano de idade. Hoje, quando saio com elas, as pessoas me perguntam se são trigêmeas, devido à semelhança e a pouquíssima diferença de idade e estatura entre elas. Mas quem observa um pouquinho percebe que, embora as três brinquem juntas e sejam unidas e amigas, há uma intimidade entre as gêmeas, uma cumplicidade que nem mesmo a irmã com idade tão próxima consegue penetrar.
Ter filhos gêmeos é uma experiência fascinante. Lembro que, na gestação, a maior preocupação que eu tinha era se saberia definir quem era quem e não confundi-las, mas comecei a notar as diferenças ainda quando estavam na minha barriga. Ao nascerem, as características de cada uma eram tão definidas que me chamavam mais a atenção que as semelhanças, já que elas tinham uma clara diferença de tamanho, detalhe que fica cada vez menos evidente com o tempo.
Costumo dizer que minhas filhas gêmeas são iguais na forma, mas diferentes no conteúdo. Cada uma tem sua personalidade, uma maneira de ser, um jeito de lidar com as situações e as pessoas. São definitivamente únicas.
Primeiro a gente observa as semelhanças entre elas e vê aquelas criaturinhas tão iguais crescerem ao mesmo tempo. Os mesmos olhos, a mesma boca. Depois vamos observando as diferenças, os traços únicos de personalidade, as características que as tornam singulares e especiais. O olho pode ser igual, mas os olhares são diferentes, a boca é igual, mas os sorrisos, diferentes.
A interação entre elas é algo fascinante: dormir aconchegadas, a troca de olhares, o toque. À medida que vão crescendo, os sons, as conversinhas, os risos, as brincadeiras, o primeiro abraço, os puxões de cabelo e as brigas... Tudo isso é instigante, maravilhoso e exclusivo.
É claro que dá trabalho! As preocupações também são em dobro. Gripes, resfriados, viroses e crises de asma acontecem sempre ao mesmo tempo. Tiveram pneumonia aos três meses de idade, as duas juntas. Oito dias de internação, e eu tendo de me desdobrar entre os dois leitos, com as duas recebendo soro e antibiótico na veia, mamando no peito, fazendo nebulizações no mesmo horário e um frio pavoroso no hospital. Esses oito dias foram mais difíceis que os 36 que elas passaram ao nascer!
Elas começaram a engatinhar quase ao mesmo tempo, por volta de 10 meses. Andaram com um ano e cinco meses, com uma diferença de dois dias entre uma e outra. Os dentes também começaram a aparecer nessa época: um dia em uma, no outro dia, na outra. As primeiras palavrinhas foram as mesmas, mas, à medida que cresciam, o que uma aprendia, ensinava à outra. E assim por diante. Aprendem quase tudo ao mesmo tempo, mas têm maneiras diferentes de entender e absorver os fatos, cada uma com seu próprio método.
Alegrias e preocupações vêm aos pares, sempre. Também cometo erros. Às vezes, me sinto perdida, confusa. Criar um filho de cada vez é muito diferente de criar dois ou três, como acabou sendo o meu caso. Aline e Camila são gêmeas, e Letícia é uma “trigêmea tardia” que acaba somando às duas alegrias e traquinagens.
Entre dores e delícias, posso dizer, sem dúvidas, que ser mãe de gêmeos é composto muito mais de delícias. Se as despesas e preocupações são dobradas, em dobro também são a disposição de todos em ajudar; a emoção de cada sorriso, de cada palavra nova, de cada abraço gostoso; as alegrias; a diversão; e principalmente, em dobro é o amor.
*E. M.: Sou portadora de Esclerose Múltipla, doença crônica e degenerativa do sistema nervoso, que atinge as fibras nervosas responsáveis pela transmissão de comandos do cérebro a várias partes do corpo, provocando um descontrole interno generalizado. Muitas vezes, o termo esclerosado é usado para as pessoas que perdem a memória ou apresentam outras confusões mentais quando vão envelhecendo. Não tem nada a ver! A Esclerose Múltipla não tem qualquer relação com as limitações que surgem com o envelhecimento. Trata-se de um problema comum em adultos jovens, diagnosticado geralmente na faixa de 20 a 40 anos. Chama-se esclerose porque causa endurecimento em placas das áreas afetadas, como uma cicatriz, e múltipla porque atinge várias áreas do cérebro simultaneamente.