Dez descobertas sobre o impacto da microbiota na saúde

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Dez descobertas sobre o impacto da microbiota na saúde

Da influência no cérebro à proteção cardiovascular, as bactérias amigáveis que vivem no intestino são fundamentais na prevenção de doenças

Por Abril Branded Content

Em 2008, 80 centros de pesquisa nos Estados Unidos se uniram para trabalhar no Projeto Microbioma Humano,[1] mapeando toda a diversidade microbial do nosso organismo. O esforço científico apontou cerca de 10 mil espécies de bactérias, vírus e fungos que habitam o corpo humano e impulsionou pesquisas sobre a influência dessas colônias nos sistemas do corpo humano. As descobertas têm potencial para definir novos rumos no diagnóstico e tratamento de diferentes enfermidades, e já se sabe que alimentos e suplementos têm papel importante para modular a microbiota intestinal em prol da saúde.

1. Comunicação com o cérebro: Parkinson e Alzheimer

O intestino aloja trilhões de bactérias, e parte delas libera neurotransmissores que ativam circuitos responsáveis pela comunicação eficiente entre o intestino e o cérebro. Especialistas da Universidade College London, na Inglaterra, analisaram dados 8 mil pacientes com doença de Parkinson e 46 mil pessoas sem o problema. A partir desse volumoso banco de dados, identificaram a prisão de ventre entre os sintomas prévios dessa doença neurológica.[2] Uma das hipóteses é a de que o predomínio de bactérias ruins do intestino ocasione a destruição de neurônios intestinais. Como o aparelho digestivo e o cérebro estão conectados pelo nervo vago, o problema afetaria também a massa cinzenta. O mesmo princípio explicaria o Alzheimer. Recentemente, cientistas do Centro de Pesquisa de Doença de Alzheimer de Wisconsin, nos EUA, constataram uma diminuição de bactérias dos filos Firmicutes e um aumento de Bacteroidetes no microbioma de pacientes com demência.[3]

2. Efeito no humor: estresse e ansiedade

Ainda na conexão entre intestino e cérebro, há indícios de que algumas bactérias produzem moléculas precursoras de serotonina e estimulam a liberação de neurotransmissores associados ao controle da ansiedade. Em 2015, um time da Universidade College Cork, na Irlanda, mostrou que ratos sem microbiota apresentavam uma diminuição na produção do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), substância que faz as células nervosas se multiplicarem e trabalharem direito, com impacto no comportamento cognitivo.[4] Embora a maioria das investigações nesse sentido ainda estejam concentradas em animais, outro grupo de cientistas da mesma instituição capitaneou uma revisão de estudos que reuniu achados mostrando que peptídeos liberados por células no intestino participam da comunicação entre esse órgão e o cérebro, influenciando o humor.[5]

3. Relação com autismo

Veio também da Irlanda um experimento comparando dois grupos de ratinhos, um deles composto por animais criados sem bactérias no intestino. Nesse, os pesquisadores observaram características típicas dos transtornos do espectro do autismo (TEA), entre elas o fato de permanecer mais tempo interagindo com um objeto do que com outros animais.[6] Os dados sugerem que o comportamento social está correlacionado com a resposta de expressão gênica na amígdala, região do cérebro envolvida na regulação da interação social, como resultado de uma interação com a colônia do microbioma. Já uma equipe da Universidade de Ohio, nos EUA, avaliou o impacto da Terapia de Transferência de Microbiota, o chamado transplante fecal, em 18 crianças diagnosticadas com TEA.[7] O resultado do tratamento apontou redução significativa em problemas como constipação, diarreia, indigestão e dor abdominal após a intervenção. E as avaliações também constataram melhora nos sintomas neurológicos e comportamentais dos pacientes.

4. Impacto na saúde bucal

Algumas bactérias influenciam problemas como cárie e periodontite. A disbiose, ou seja, o desequilíbrio entre espécies benéficas e patogênicas, pode interferir no desenvolvimento da doença periodontal. Estudos experimentais e ensaios clínicos demonstraram que certas bactérias gastrointestinais, incluindo Lactobacillus e Bifidobacterium, têm potencial de controlar o crescimento de micro-organismos orais. E que o uso de probióticos, aliado ao tratamento convencional, é capaz de produzir uma melhora significativa na doença.[8]

5. Micro-organismos por trás do ganho exagerado de peso

Não é de hoje que os cientistas investigam a relação entre microbiota e obesidade. As evidências mais recentes apontam para uma presença maior de bactérias do filo Firmicutes em relação às do filo Bacteroidetes em pessoas obesas em comparação a indivíduos com peso dentro do padrão considerado normal. Em 2018, uma revisão de estudos capitaneada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo[9] corroborou a importância da colônia de micro-organismos que vivem no intestino na metabolização dos nutrientes da dieta, assim como na regulação do uso de energia dos alimentos. Pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), por sua vez, descobriram uma correlação entre a colônia de fungos da microbiota e os quilos a mais. Eles realizaram exames de sangue e de fezes em três grupos de indivíduos – obesos, com sobrepeso e com peso normal. Ao comparar os resultados perceberam, entre aqueles acima do peso, alterações na composição de fungos ligadas a um maior consumo de carboidrato e níveis mais elevados de colesterol e triglicérides.[10]

6. Papel em doenças cardiovasculares

Muito vinculada a hábitos de vida como sedentarismo e dieta rica em sódio, a hipertensão também tem estado no mira de pesquisadores que buscam na microbiota a resposta para prevenir abalos no coração e no cérebro. Os primeiros achados demonstram que certas bactérias têm mesmo a habilidade de induzir a produção de substâncias que regulam a pressão arterial. É o caso do trabalho liderado pela Universidade da Flórida, nos EUA, que fez uma análise genômica de amostras fecais em pacientes hipertensos e encontrou uma associação entre o desbalanço de Firmicutes/Bacteroidetes e o aumento de pressão.[11] A hipótese dos autores é de que fatores como dieta, predisposição genética e obesidade impactam a composição microbiana do intestino, induzindo a essa disbiose, com aumento de células inflamatórias. E essa combinação perigosa levaria ao desenvolvimento e manutenção de pressão arterial elevada.

Em outra frente, pesquisadores da Universidade de Groningen, na Holanda, sugerem um papel dos micróbios intestinais na modificação do metabolismo lipídico, também com impacto na saúde cardiovascular.[12] Eles analisaram dados de colesterol total, LDL, HDL e triglicérides de mais de 980 pessoas e, por meio de sequenciamento genético do microbioma, chegaram à conclusão de que essa população intestinal pode desempenhar um papel importante na variação do índice de massa corporal e dos níveis de gordura no sangue. Os autores apontam 34 combinações de bactérias associadas com IMC e colesterol alto e acreditam que essa informação abre caminho para a modulação da microbiota, por meio de probióticos e prebióticos, como estratégia na prevenção de doenças cardiovasculares.

7. Controle da glicemia e resposta imunológica no diabetes

Uma das doenças crônicas que mais ameaçam a saúde, o diabetes não fica de fora do radar de quem se debruça nas bancadas dos laboratórios em busca de saída para seu manejo. Novidade nesse cenário vem de trabalho feito por diferentes instituições, incluindo um grupo de Minas Gerais da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). De acordo com o estudo, a abundância da bactéria Akkermansia muciniphila, uma das moradoras do intestino, ajuda na síntese da glicose, impedindo sua alta concentração na corrente sanguínea.[13] Ou seja, nutrientes que favorecem a presença da bactéria podem fazer diferença no controle do diabetes. Outra linha de pesquisa foi apresentada pela Universidade de Medicina Chinesa de Pequim. Por lá, cientistas conduziram uma revisão de estudos na qual encontraram, por exemplo, informações como a de um aumento de bactérias Enterobacter cloacae e Bacteroides e uma diminuição de Firmicutes, Bifidobacterium, assim como de algumas espécies de lactobacilos, na microbiota de crianças com diabetes tipo 1. Alterações similares apareceram também em pesquisas com indivíduos com diabetes tipo 2. A partir desses dados, os pesquisadores chineses se concentraram em entender como o diabetes é regulado por células imunomoduladoras localizadas na microbiota intestinal.[14] Afinal, ponderam esses cientistas, a doença está ligada ao metabolismo da glicose, processo este profundamente influenciado pela colônia que vive em nosso intestino. Por isso, o time de Pequim acredita que desvendar o complexo mecanismo deve contribuir para o desenvolvimento de novas terapias para seu controle.

8. Regulando o intestino

Considerando que boa parte da microbiota fica na região abdominal, é natural encontrar impacto dessa colônia no funcionamento intestinal. Não por acaso, probióticos e simbióticos entram no rol de estratégias para tratar constipação, por exemplo. Isso porque está comprovado que bactérias como Bifidobacterium animalis, presentes em determinados iogurtes, estimulam os movimentos peristálticos, fazendo as fezes seguirem seu caminho. Lactobacilos e bifidobactérias já aparecem também em testes feitos com quem sofre de síndrome do intestino irritável, abrandando sintomas como dores abdominais e diarreias constantes.[15]

9. Efeito em alergias e problemas de pele

A composição da microbiota sofre influência até mesmo do tipo de parto. Nos bebês que vêm ao mundo pelo canal vaginal há uma predominância de bifidobactérias e Lactobacillus. Já os nascidos por cesárea tendem a apresentar mais micro-organismos patogênicos como Staphylococcus, parecidos com a pele da mãe e dos profissionais de quem recebem os primeiros cuidados.[16] No segundo grupo, estudos mostram um risco maior de desenvolver alergias, a exemplo de asma e dermatite atópica.[17] Inflamações na pele, aliás, foi o foco de uma revisão de estudos feita por duas instituições americanas.[18] No levantamento, os autores analisam o uso de probióticos no tratamento de acne e rosácea e na proteção contra o fotoenvelhecimento. Eles citam, entre outras, uma pesquisa feita na Coreia com pessoas com acne. No experimento, a ingestão de leite fermentado enriquecido com lactoferrina foi capaz de reduzir a produção de sebo e, consequentemente, melhorou a inflamação na pele dos participantes.

10. Diminuição no risco de câncer

De acordo com a ciência, a prevenção da disbiose é crucial para evitar o aparecimento de tumores. Há evidências de que bactérias, fungos e vírus da microbiota exercem efeito tanto no aparecimento e na progressão do câncer quanto na resposta aos tratamentos. Em artigo publicado no European Journal of Immunolgy,[19] especialistas do Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, defendem que, embora ainda seja necessário avançar no entendimento completo do papel das diferentes espécies na doença, já é possível reconhecer a influência de prebióticos, probióticos e transplante fecal na abordagem terapêutica dos diferentes tipos de câncer.


Referências:

  1. NIH Human Microbiome Project. Disponível em [https://hmpdacc.org/]
  2. Adams-Carr KL, Bestwick JP, Shribman S, Lees A, Schrag A, Noyce AJ. Constipation preceding Parkinson's disease: a systematic review and meta-analysis. 2016. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26345189]
  3. Vogt NM, Kerby RL, Dill-McFarland KA, Harding SJ, Merluzzi AP, Johnson SC, Carlsson CM, Asthana S, Zetterberg H, Blennow K, Bendlin BB, Rey FE. Gut microbiome alterations in Alzheimer’s disease. Nature. 2017. Disponível vem [https://www.nature.com/articles/s41598-017-13601-y]
  4. Desbonnet L, Clarke G, Traplin A, O'Sullivan O, Crispie F, Moloney RD, Cotter PD, Dinan TG, Cryan JF. Gut microbiota depletion from early adolescence in mice: Implications for brain and behaviour. 2015. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25866195]
  5. Lach G, Schellekens H, Dinan TG, Cryan JF. Anxiety, depression, and the microbiome: a role for gut peptides. 2017. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29134359]
  6. Stilling RM, Moloney GM, Ryan FJ, Hoban AE, Bastiaanssen TFS, Shanahan F, Clarke G, Claesson MJ, Dinan TG, Cryan JF. Social interaction-induced activation of RNA splicing in the amygdala of microbiome-deficient mice. 2018. Disponível em [https://elifesciences.org/articles/33070#digest]
  7. Kang D, Adams B, Gregory A, Borody T, Chittick L, Fasano A, Khoruts A, Geis E, Maldonado Juan, McDonough-Means S, Pollard EL, Roux S, Sadowsky MJ, Schwarzberg K, Sullivan M,  Caporaso JG, Krajmalnik-Brown R. Microbiota transfer therapy alters gut ecosystem and improves gastrointestinal and autism symptoms: an open-label study. Microbiome. 2017. Disponível em [https://microbiomejournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s40168-016-0225-7]
  8. Allaker RP, Stephen AS. Use of Probiotics and Oral Health. 2017.Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5688201/]
  9. Ferreira BAM, Sala P, Fonseca DC, Heymsfield SB, Waitzberg DL. Gut morphology and gene expression in obesity: Short review and perspectives. Clinical Nutrition Experimental. 2018. Disponível em [https://www.clinicalnutritionexperimental.com/article/S2352-9393(18)30007-1/pdf]
  10. Borges FM, Paula TO, Sarmiento MRA, Oliveira MG, Pereira MLM, Toledo IV, Nascimento TC, Ferreira-Machado AB, Silva VL, Diniz CG. Fungal diversity of human gut microbiota among eutrophic, overweight, and obese Individuals based on aerobic culture-dependent approach. 2017. Disponível em [https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00284-018-1438-8]
  11. Yang T, Santisteban MM, Rodriguez V, Li E, Ahmari N, Carvajal JM, Zadeh M, Gong M, Qi Y, Zubcevic J, Sahay B, Pepine CJ, Raizada MK, Mohamadzadeh M. Gut dysbiosis is linked to hypertension. 2015. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25870193/]
  12. Fu J, Bonder MJ, Cenit MC, Tigchelaar EF, Maatman A, Dekens JA, Brandsma E, Marczynska J, Imhann F, Weersma RK, Franke L, Poon TW, Xavier RJ, Gevers D, Hofker MH, Wijmenga C, Zhernakova A. The gut microbiome contributes to a substantial proportion of the variation in blood lipids. 2105. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26358192/]
  13. Greer RL, Dong X, Moraes ACF, Zielke AR, Fernandes GR, Peremyslova E, Vasquez-Perez S, Schoenborn AA, Gomes EP, Pereira AC, Ferreira SRG, Yao M, Fuss IJ, Strober W, Sikora AE, Taylor GA, Gulati AS, Morgun A, Shulzhenko N. Akkermansia muciniphila mediates negative effects of IFNγ on glucose metabolism.  2016. Disponíel em [https://www.nature.com/articles/ncomms13329].
  14. Li Q , Gao Z, Wang H, Wu H, Liu Y, Yang Y, Han L, Wang X, Zhao L, Tong X. Intestinal immunomodulatory cells (T Lymphocytes): a bridge between gut microbiota and diabetes. 2018. Disponível em [https://www.hindawi.com/journals/mi/2018/9830939/abs/]
  15. Bruno K. Rodiño-Janeiro BK, Vicario M, Alonso-Cotoner C, Pascua-García R, Santos J. A review of microbiota and irritable bowel syndrome: future in therapies. 2018. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5859043/]
  16. Makino H, Kushiro A, Ishikawa E, Kubota H, Gawad A, Sakai T, Oishi K, Martin R, Ben-Amor K, Knol J, Tanaka R. Mother-to-infant transmission of intestinal bifidobacterial strains has an impact on the early development of vaginally delivered infant’s microbiota. 2013. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24244304]
  17. Renz-Polster H, David MR, Buist AS, Vollmer WM, O'Connor EA, Frazier EA, Wall MA - Clin Exp Allergy. Caesarean section delivery and the risk of allergic disorders in childhood. 2005. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16297144/]
  18. Kober MM, Bowe WP. The effect of probiotics on immune regulation, acne, and photoaging. 2015. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5418745/]
  19. Kim J, Ko Y, Park YK, Kim NI, Ha WK, Cho Y. Dietary effect of lactoferrin-enriched fermented milk on skin surface lipid and clinical improvement in Acne vulgaris. Nutrition. 2010. Disponível em [https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20692602]
  20. Dzutsev A, Goldszmid RS, Viaud S, Zitvogel L, Trinchieri G. The role of the microbiota in inflammation, carcinogenesis, and cancer therapy. 2014. Disponível em [https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/eji.201444972]