Estamos vivendo mais. A população brasileira com 65 anos ou mais cresceu quase 60% em apenas 12 anos, segundo o último Censo do IBGE. São cerca de 35 milhões de pessoas que já vivem essa nova fase da vida com mais autonomia e propósitos diversos.
Envelhecer deixou de ser sinônimo de fragilidade. Hoje podemos dizer que envelhecer tornou-se uma potência com sabedoria acumulada. Não à toa, a geração prateada movimentou cerca de R$ 2 trilhões em 2024, número que deve alcançar R$ 3,8 trilhões até 2044 - o equivalente a 35% do consumo total do Brasil -, reforçando seu grande potencial econômico, de acordo com pesquisas recentes da Data8, empresa de pesquisa com foco na população 50+.
Essa tendência não é exclusiva do Brasil. O Fórum Econômico Mundial de 2024 destacou o envelhecimento populacional como um dos grandes temas do futuro, tanto em termos sociais quanto econômicos. Segundo os especialistas reunidos em Davos, estamos diante de uma transformação demográfica que precisa ser entendida como uma alavanca de crescimento: com políticas públicas, inovações e iniciativas de mercado voltadas às necessidades e aspirações da população 50+, os países têm a chance de impulsionar economias mais inclusivas, sustentáveis e longevas. A chamada “economia da longevidade” representa um movimento que só tende a crescer à medida que aumenta a expectativa de vida no mundo.
Apesar dos avanços, o etarismo ainda é naturalizado e silencioso. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada duas pessoas no mundo tem atitudes discriminatórias em relação a pessoas mais velhas. No Brasil, o cenário é igualmente preocupante: levantamento da Organização Mundial da Saúde das Américas mostra que 73% dos brasileiros com mais de 60 anos já se sentiram invisíveis em diferentes espaços, da publicidade ao mercado de trabalho, passando pelos próprios ambientes familiares.
A ascensão da inteligência artificial trouxe uma nova camada de complexidade ao problema da invisibilidade. As IAs generativas acabam refletindo e, em determinados casos, até amplificando estereótipos já enraizados, reproduzindo textos, imagens e vídeos com os mesmos preconceitos estruturais da sociedade, agora de forma automatizada. Ao gerar a imagem de uma “mulher de 65 anos” ou de um “homem de 90 apaixonado por teatro”, essas ferramentas frequentemente entregam resultados caricatos, envelhecidos artificialmente, muitas vezes desumanizados.
E isso nada mais é do que um reflexo da sociedade. Esse fenômeno revela um comportamento importante: não é a tecnologia que discrimina, somos nós que a treinamos com nossos próprios vieses. E quando falamos de etarismo, a IA não apenas repete o problema, como o amplifica em escala. A IA generativa pode ser uma aliada, mas só será verdadeiramente transformadora quando for treinada para refletir a diversidade da vida real.
Como sociedade, precisamos criar referências mais plurais, reais e conectadas à diversidade das trajetórias de vida. Esse esforço precisa ser coletivo e ampliado, uma vez que são hábitos enraizados e estruturais que não se modulam do dia para a noite. E nesse contexto, marcas têm responsabilidade social e devem ampliar cada vez mais essa conversa. Não apenas sobre o que vendem, mas sobre o que dizem, o que mostram, o que estimulam. Em vez de reforçar estigmas, escolhemos contar novas histórias, com quem as vive de verdade.
Estamos diante de uma geração que pratica esportes, empreende, estuda, se reinventa. Envelhecer é inevitável, mas também pode ser sinônimo de protagonismo, saúde, liberdade e reinvenção. Precisamos compreender que isso só se torna realidade quando deixamos de associar a idade a limites, fragilidades e estereótipos ultrapassados - sejam eles digitais ou não.
Fontes utilizadas:
IBGE (Projeção da População 2023)
PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, 2024)
OMS (Global Campaign to Combat Ageism, 2021)
Organização Pan-Americana da Saúde (Relatório sobre Idadismo nas Américas, 2022)
Data8 (Geração Prateada, 2023)